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EXALTAÇÃO À BAHIA
Certamente não
apenas um dos mais característicos sambas de exaltação de
todos os tempos. Também um dos mais instigantes exemplares de
samba para "gran finale oba-oba" de revista musical. Escrito,
aliás, por dois revistógrafos famosos, o português Chianca de
Garcia e o brasileiro Vicente Paiva. E criado por Heleninha,
em disco Colúmbia (número 55.463) no ano de 1943, quando a
cantora era crooner do Cassino da Urca. O fonograma
aqui apresentado foi extraído do programa A música e a
inspiração irradiado pela Rádio Nacional em 30 de maio de
1953. Heleninha, em plena forma, capricha em todos os "erres"
a que tem direito, emoldurados aliás por um arranjo provocador
e grandiloquente, bem ao gosto tanto da época quanto do
próprio estilo do samba-exaltação. A participação especial do
conjunto Os Cariocas aumenta - se isso é possível - o valor
artístico do fonograma.
TURISTA Disfarçado por seu autor, o
maestro Guio de Moraes, em samba de morro, este Turista
não é senão mais um samba-exaltação, digamos em tom menor.
Aliás, ninguém melhor que Heleninha para imprimir tal
chancela, pela extensão de sua voz e por sua apetência natural
para o gênero. O fonograma aqui mostrado foi extraído do
programa Rádio Miniatura Niasi, veiculado pela Rádio
Nacional em 1960. Mas a gravação original - criada também por
Heleninha - foi realizada para o valioso LP da Todamérica
"Canta Heleninha Costa", um doze polegadas com arranjos de
Guio de Moraes e Radamés Gnattali, gravado em julho de 1958
(LP TA-331).
MERCI Típico produto dos anos 50, a
versão de boleros estrangeiros era uma quase obrigação no
repertório de todos os cantores. Especialmente aqueles que
eram pau para toda obra, isto é, os cantores da Nacional -
dotados de grande qualidade e versatilidade, normalmente
requisitados para defender na PRE-8 as músicas estrangeiras
que estavam em voga. O fonograma foi extraído do programa
Este mundo é uma delícia, transmitido pela Nacional em
12 de março de 1959. A gravação original de Merci (curioso
batismo vernacular do bolero "L'edera") é também de Heleninha
para seu 78 rpm da Todamérica sob o número 5.772.
BATE UM SAMBA Este Bate um
Samba não faz justiça a seu autor Guio de Moraes. Contudo,
salva-se a nossa Heleninha Costa. Neste registro, aliás, muito
próxima a Dircinha Baptista na maneira de cantar, em especial
ao abrir as vogais e prolongar determinadas notas. Mais uma
gravação original da própria cantora (LP TA-331 Todamérica,
1958). O fonograma foi extraído de um dos programas da
Nacional mais freqüentados por Heleninha ao final dos anos 50,
o Rádio Miniatura Niasi (1960), produzido por Lourival
Marques.
JUNTO DE TI O bolero dominou
amplamente os veículos de comunicação do Brasil, em especial
logo depois da 2a. Guerra Mundial. Houve boleros ótimos e
boleros horrendos, como em qualquer modismo musical. Este
Junto de Ti fica em cima do muro: nem muito mau, nem
muito bom. O programa foi extraído do esfuziante programa A
felicidade bate à sua porta, transmitido pela Nacional em
2 de julho de 1950. A gravação original foi também da própria
Heleninha, pela mesma época (Disco Sinter 05, lançado em
agosto de 1950).
BAIÃO SERENATA Enquanto as grandes
empresas do lazer norte-americano despejavam por aqui ao final
dos 40 sua enxurrada de ritmos, de discos, de filmes e de
modismos de várias ordens, a cena musical brasileira resistia
com duas pontas-de-lança: o baião e o samba-canção. O baião -
com todo seu vigor telúrico do nordeste - foi urbanizado e
transposto para o mass media pela dupla Luiz
Gonzaga-Humberto Teixeira. Este Baião-Serenata é um exemplo de
grandeza e despojamento vital do novo ritmo. Menos baião e
mais toada, a peça resiste pela beleza da interpretação de
Heleninha. O fonograma foi extraído do programa Noite de
Estrelas, transmitido pela Nacional no dia 12 de junho de
1953. A gravação original foi feita pela cantora quase um ano
antes (RCA 80-0978, de 4/7/1952).
DORME A transposição do bolero de
Miguel Prado Dorme para fox acabou virando uma canção, talvez
uma berceuse, na interpretação seguríssima de Heleninha
Costa. Este é o fonograma mais antigo dos doze aqui incluídos
e é datado de 12 de janeiro de 1948. O programa de onde ele
foi extraído é o célebre Cancioneiro do Leite de Rosas,
em que reinava absoluto Francisco Alves. A participação de
Heleninha, como convidada do "Rei da Voz", atesta muito bem o
grau de prestígio musical que a cantora detinha no meio
artístico da época. O fonograma, aliás, é muito valioso até
porque esta versão de Haroldo Barbosa nunca foi exibida por
Heleninha nem antes nem depois desse registro.
O SAMBA É UM LAMENTO Mais um
samba-exaltação ao próprio samba. Uma receita literária muito
ao gosto da nostálgica e ingênua década de 50. Aqui, uma dupla
ilustríssima, J.Cascata e Nássara, dão um perfil apoteótico ao
velho samba, transformando um gênero musical a partir do
segundo decênio deste século. A muito bem feita letra Nássara
não deixa de ser uma resposta dos tradicionalistas do samba ao
discurso revolucionário da bossa nova, que pregava a estética
da flor, do mar, do sal e do sol. O fonograma foi extraído do
programa Rádio Miniatura Niasi, datado de 26 de
dezembro de 1961. E a gravação original foi também feita por
Heleninha três anos e meio antes, em julho de 1958 (LP TA-331
- Todamérica).
SIGA Um momento muito especial deste
LP é este fonograma com a interpretação de Heleninha para
Siga, esta jóia de Fernando Lobo: aqui, a contenção, a
presença de espírito e a luminosidade da arte da cantora
extrapolam e passam a construir um momento muito claro a que
habitualmente se dá o nome de "momento mágico". É aquele
momento em que tudo converge e vira beleza. É a liberação dos
anjos e dos demônios: é a obra de arte. De longe, a melhor
gravação de Siga. De longe, uma das mais preciosas
interpretações de uma cantora cheia de pontos altos. Este
fonograma, privilegiado também por um arranjo irretocável de
Radamés, foi extraído do programa Este mundo é uma
delícia, transmitido pela Rádio Nacional em 13 de março de
1959. A gravação original da peça foi do Trio Irakitan, ainda
com o falecido Edinho ao lado de Gilvan e Joãozinho (Odeon -
10.955, gravado em 26.1.56).
DIFERENTE O refinamento com que o
rádio era feito nas décadas de 40 e 50 nunca foi superado por
qualquer outro veículo de comunicação de massa neste país. A
Rádio Nacional se esmerava a tal ponto com seu padrão de
qualidade que não apenas seus programas noturnos eram classe
A. Os frenéticos programas diurnos de auditório mereciam
igualmente cuidados musicais que até hoje não têm paralelos.
Exemplo vocês têm neste fonograma: aqui se guardou para a
posteridade a estréia do programa Alegria meus
senhores, do animador Manuel Barcellos. O requintado
arranjo para o choro de Raimundo Flores é de Radamés e este é
um fonograma inédito, já que nunca foi a música transposta
para disco.
MIX: AFINAL E FELICIDADE O bolero
Afinal foi um dos triunfos fonográficos da carreira de
Heleninha Costa. Lançado em disco Sinter (no. 48) no ano de
1951, o bolero varou os anos seguintes, incorporando-se à
bagagem permanente de sua criadora. Escrita por Ismael Netto
(marido da cantora e arranjador do conjunto Os Cariocas) e
Luiz Bittencourt, a música participou do programa A pausa
que refresca da Nacional no dia 17/8/51. No dia anterior,
e no mesmo programa, Heleninha cantou um samba-canção que
despontava, típico daquele começo de década. Era
Felicidade, da excelente dupla Luiz Antonio e Jota Jr.,
uma música que depois veio inspirar outro samba-canção famoso,
Rua sem sol, de A. Seixas e Chocolate.
Felicidade e Afinal foram lançados em disco por
Heleninha dois meses antes desses fonogramas (Discos Sinter,
n0. 48 - julho de 1951).
TERRA SECA Peça talhada para sua voz e
sua personalidade, Heleninha Costa exibe aqui um "à vontade"
insuperável. De mais a mais, o programa de que foi extraído o
fonograma terá sido certamente um momento importante da
radiofonia na época: a estréia de Ary Barroso na Nacional, no
dia 27 de julho de 1956. O programa Aqui está o Ary foi
produzido e apresentado por Paulo Roberto, o admirável Dr.
Paulo Roberto, cuja voz emocionada se ouve ao final,
registrando a calorosa recepção à Heleninha Costa tributada
pelo auditório. A cantora por sinal nunca levaria a disco esta
música, que foi gravada, entre outros, por dois astros de
primeira grandeza: Deo e Orlando Silva. A gravação original de
Terra Seca, contudo, remonta ao ano de 1943 (20 de
setembro) e foi realizada pelos Quatro Azes e Um Coringa
(Odeon - 12.375).
Ricardo Cravo Albin -
março.1989 |