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CAPRICHO DE RAPAZ SOLTEIRO
Este samba
- um dos muitos que na década de 30 focalizaram a
incompatibilidade entre o malandro e o casamento - dribla os
lugares-comuns do tema para se tornar mais um exemplo da
genialidade do letrista Noel Rosa. Roberto Paiva reviveu-o na
Tupi, a 12 de maio de 1951, quando poucos se lembravam dele
(Mário Reis o gravara em 1933, por sinal de maneira soberba).
Mas o samba nada perde nesta nova versão. Pena, só, que tanto
Mário como Roberto tinham deixado de fora versos como estes,
até hoje inéditos: "Muito mais do que canoa/o malandro em
terra joga/A canoa afunda à toa/Ele vira e não se
afoga..."
DEIXA DE SER CONVENCIDA Foi no
programa de 22 de junho de 1951 que Almirante focalizou o fim
da famosa polêmica Wilson-Noel, revelando ao público essa
surpreendente parceria dos dois inimigos (Noel
colocando nova letra em Terra de Cego, que Wilson
fizera para fustigá-lo). Roberto Paiva ficou incumbido de
cantar o samba em primeira audição. Aliás, o próprio Roberto
gravaria a polêmica em duas ocasiões (a primeira em 1956, na
Odeon, com Francisco Egídio, e a outra em 1974, no Studio
Hara, com Jorge Veiga). E, estranhamente, em ambas se omitiu
Deixa de ser convencida. Este é, portanto, o único
registro sonoro do samba feito até aqui.
PALMEIRA TRISTE Este samba foi o
primeiro gravado por Carmem Barbosa, na Victor, em 7.4.37
tendo do outro lado No picadeiro da vida do mesmo
autor, em parceria com Benedito Lacerda. Carmem Barbosa morreu
aos 23 anos, em 1942 e por isso seus sucessos são pouco
lembrados. Naquele mesmo ano de 37, outra Carmem (Miranda)
gravava no mesmo Herivelto Martins o famoso Cabaret no
morro. Quinze anos depois, na Rádio Tupi do Rio de
Janeiro, no programa Viva o samba de 25.6.52, Roberto
Paiva cantou novamente a Palmeira Triste do Herivelto
Martins e sua interpretação é tão sincera, tão convincente em
dizer-se uma "palmeira triste", que o samba, em sua voz,
sobrevive. Este é o fonograma que apresentamos aqui. Naquele
tempo o samba ainda era motivo de programas de rádio ou
televisão.
CANSEI DE PEDIR Sobre as excepcionais
qualidade do samba, já foi feito documentário no volume XIII
desta série Os Ídolos do Rádio, dedicado a Aracy de
Almeida. Também foi dito ali que ninguém o cantava como Aracy,
que afinal o aprendeu do próprio Noel em 1935. Mas o
desempenho de Roberto Paiva, a 3 de agosto de 1951, na Tupi,
não é apenas um dos melhores momentos deste disco: é também
uma prova de que Roberto Paiva tinha voz e sensibilidade
suficientes para ousar incursões em repertório alheio. Toda a
sinuosidade da melodia - assim como a sutileza da letra - está
presente nesta releitura.
TRÊS APITOS Por motivos pouco sabidos,
Noel não gravou, nem deixou ninguém gravar este antológico
samba, enquanto ele vivesse. Só em 1951 Aracy de Almeida o
levaria ao disco, com orquestração de Radamés Gnattali. Cinco
meses depois, a 3 de agosto daquele mesmo ano, Roberto Paiva,
então com a orquestra do maestro Carioca, o cantaria na Tupi.
Sua versão é correta, contida, mas nem por isso desprovida de
cor e calor. O samba é um dos favoritos de Roberto, em toda a
rica obra de Noel. Tanto que ele o gravou na Sinter pela mesma
época de sua apresentação na Tupi. Quanto ao Três
apitos propriamente dito, é mesmo antológico. Bela melodia
vestindo versos intocáveis.
COPACABANA Um clássico que, graças à
interpretação sinatracrosbyana de Dick Farney, lançou em 1946
as bases do moderno samba-canção, no qual Lúcio Alves e o
próprio Dick seriam as vozes principais. Um clássico com tanto
apelo que ninguém atentou para o fato de ter parte da melodia
rigorosamente igual a I'll remember april, lançada
quatro anos antes no filme Cavalheiros da galhofa, da
dupla Abbott & Costello, e logo alçada ao topo do hit
parade americano. A versão de Roberto Paiva, no programa
Viva o samba de 6 de agosto de 1952, é bem diferente da
de Dick Farney. Está mais para samba do que para
canção.
NOUTROS TEMPOS ERA EU Outro bom
exemplo da ousadia de Roberto Paiva, da confiança que tinha em
suas próprias qualidades a ponto de interpretar canções já
consagradas. Aqui, ele revisita o Orlando Silva que gravara
este bonito samba de Ataulfo em 1943. E o fez com dignidade e
estilo, sem nos induzir a comparações desnecessárias.
Aconteceu no programa Viva o samba de 1952. Boa
oportunidade para se avaliar não só as virtudes de Roberto
como também toda a categoria do mestre Ataulfo.
PELA DÉCIMA VEZ "O costume é a força
que fala mais alto que a natureza...", filosofa Noel para
justificar a repetida quebra de um juramento. Samba dos
melhores, um dos favoritos do poeta, que não teve a sorte de
vê-lo gravado (só dez anos depois de sua morte Aracy de
Almeida entraria no estúdio da Odeon para perpetuar-lhe música
e letra). "... ela é o veneno que escolhi para morrer sem
sentir" é um desfecho tipicamente Noel. Roberto Paiva
entrega-se a este samba perfeitamente afinado com sua forma e
seu conteúdo. Cantou-o na Tupi em 10 de agosto de 1951.
MARIA DA GRAÇA Os bossanovistas hão de
ter dificuldades de reconhecer Tom & Vinícius por trás
deste samba bem tradicional que Roberto Paiva cantou na
Nacional em 2 de outubro de 1962 (o próprio Roberto o havia
gravado quatro anos antes, ou seja, no mesmo 1958 em que Tom
& Vinícius começaram a navegar nas águas da bossa nova).
Tanto na melodia, sem maiores ambições formais, como na letra,
simplezinha (para usar o diminutivo tão ao gosto do
poeta), o samba pouco tem a ver com o estilo que consagraria a
dupla. Mas Roberto Paiva empresta-lhe sua costumeira
correção.
COR DE CINZA Quando Roberto Paiva o
cantou, na noite de 10 de agosto de 1951, no auditório da
Tupi, este admirável samba ainda estava inédito em disco. Só
três anos depois Aracy de Almeida o gravaria, por insistência
de amigos boêmios que a ouviam interpretá-lo, cheia de
sentimento, nas madrugadas daqueles tempos. É uma das
obras-primas de Noel. A letra, estranha, meio impressionista,
de sentido algo nebuloso, é quase indecifrável. Sei de
estudiosos da música popular que já vararam noite buscando
explicação para o que o poeta quis dizer com seus versos. Mas
a boa poesia não se explica: saboreia-se. A interpretação de
Roberto Paiva é excelente.
AI QUE SAUDADES DA AMÉLIA Todo mundo
sabe: este é um dos maiores sambas de todos os tempos. Pela
inteligente letra de Mário e pela irresistível melodia de
Ataulfo. Dizem os historiadores que o próprio Ataulfo o
gravou, em fins de 1941, porque nenhum cantor se interessou.
Sorte de Ataulfo e de todos nós, que ganhamos com isso um novo
e formidável intérprete de samba. Roberto Paiva enalteceu a
"mulher de verdade" no programa Aquarela das Américas,
na Rádio Nacional, em 1 de março de 1946. Detalhes: a bateria
é de Luciano Perrone e o piano, de Radamés Gnattali.
PASTORINHAS Outra obra definitiva da
nossa música popular. Uma marcha, quase em forma de rancho,
que Noel e Braguinha fizeram em 1934. Deram-lhe o nome
Linda Pequena. João Petra gravou-a naquele mesmo
ano, mas ela só seria lançada em fins de 35. Nada aconteceu.
Depois da morte de Noel, Braguinha mudou o título e dois
versos, deu para Sílvio Caldas gravar e ganhou o carnaval de
38. Roberto Paiva ousa mais uma vez. Sua Pastorinhas -
interpretada no Aquarela das Américas na mesma noite de
Amélia - dispensa confrontações: tem encanto
próprio.
João Máximo -
Março.1989 |