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I COULD HAVE DANCED ALL NIGHT
Lançada
por Julie Andrews em My fair lady, musical que estreou na
Broadway a 15 de março de 1956, convertendo-se logo num
clássico do gênero - esta canção ganharia vida própria fora da
peça, merecendo incontáveis gravações além da original de
Julie. Lerner (1918-1986) e Loewe (1905-1988) foram dois
gigantes do teatro. O primeiro, americano, sabia como poucos
escrever letras para determinados contextos, mais para servir
a uma cena ou um personagem do que para funcionar
isoladamente. I could have danced all night é bom
exemplo: Elisa Doolitle, a personagem vivida por Julie
Andrews, canta sua alegria por ter aprendido a lição de
fonética do exigente professor Higgins, isto é, Rex Harrison.
Loewe, austríaco, levou para os Estados Unidos muito da
tradição melódica da opereta européia. Sua música, embora viva
e variada, reflete todo o clima romântico de sua Viena natal.
A interpretação de Lenita, fiel à original, é perfeita.
WOULDN'T IT BE LOVERLY Também lançado
por Julie Andrews em My fair lady, esta canção tem um clima
bem diferente da anterior. É, na verdade, um shottische que
tenta nos remeter à atmosfera das ruas londrinas do começo do
século. Lenita evita aqui o acento cockney que Julie, por
exigência do texto, imprime à versão original. Vale prestar
atenção, também, às orquestrações destas duas primeiras faixas
do disco. Seriam de Leo Peracchi? Sendo ou não, seguem muito
de perto as que Robert Russel Bennett e Philip J. Lang
escreveram para o musical.
TONIGHT Larry Kert e Carol Lawrence
interpretaram a canção, em dueto, no primeiro ato de West side
story, musical que chegou à Broadway a 26 de setembro de 1957
e que também se transformaria num clássico. Pela rica música
de Bernstein e pelas inteligentes letras de Sondheim, mais
tarde passando a escrever a música para seus próprios versos,
acabaria sendo "o menino de ouro" do moderno teatro musical
americano. Na época, estava apenas começando. Quanto a
Bernstein, confina-se hoje às salas de concerto, como
compositor, regente e pianista. West side story é a versão
novaiorquina, anos 50, da tragédia de Romeu e Julieta. Lenita
canta Tonight com uma classe que nada deve à Julieta
original.
ALWAYS Com grande orquestra e coro,
Lenita entrega-se de forma sentida a esta bela balada escrita
pelo grande Berlin (1988-1989). Embora muitas de suas canções
também tenham sido escritas para o teatro ou para o cinema,
Always, na verdade uma valsa, é obra avulsa, uma das
várias com as quais o compositor e letrista embalou, em 1925,
seu rumoroso romance com a milionária Ellin Mckay. Os dois se
casariam no ano seguinte. Como tantas histórias de Hollywood,
seriam felizes para sempre. Ela morreria dois meses depois do
centésimo aniversário dele. Berlin, uma espécie de instituição
americana, duraria mais um ano. É impressionante o à-vontade
de Lenita com música e letra de Always.
SHADOW WALTZ Foi um sucesso no mundo
inteiro, no Brasil inclusive, o filme Cavadoras de ouro, de
1933. Tinha tudo para dar certo naqueles primórdios do cinema
sonoro: um atraente par romântico em Dick Powell & Ruby
Keeler, espetaculares números de dança bolados por Busby
Berkeley e um irresistível score musical da dupla Warren
(1893-1981) e Dubin (1891-1945). Warren foi um dos primeiros
melodistas da música popular americana, ganhador de dois
Oscars, criador de You'll never know, The more I see you,
There will never be another you, Chattanooga Choo-choo, At
last e tantas mais. Sua "valsa das sombras" é belíssima, como
Lenita bem o demonstra. Uma das jóias daquele antológico filme
de 1933.
TOOT, TOOT, TOOTSIE! (GOODBYE) Nos
anos 20, o desejo de todo compositor americano era ter sua
música cantada por Al Jolson. Seria sucesso na certa. Nada
menos de quatro deles - Erdman (1879-1946), Kahn (1886-1941),
Fiorito (1900-1971) e King (1862-1932) - se juntaram para
escrever esta contagiante canção. Jolson gostou tanto dela que
a incluiu entre os números de Bombo, revista que estreara na
Broadway a 6 de outubro de 1921, antes da canção ser feita. E
mais: a cantaria também em O cantor de jazz (The jazz singer),
de 1927, historicamente o primeiro filme sonoro. Lenita
interpreta como se tivesse se formado pela enriquecedora
escola do vaudevile.
I CAN'T GIVE YOU ANYTHING BUT
LOVE Dorothy (1904-1974) foi talvez a maior figura
feminina da lírica popular americana. Um dia, parou ao lado de
um jovem casal que olhava a vitrine de uma daquelas joalherias
grã-finas da Quinta Avenida de Nova York. Ao ver a namorada
admirar, triste, as jóias que ele não podia lhe comprar, o
rapaz disse-lhe: "Não posso te dar nada além de amor,
querida". Nasceram assim o título e o primeiro verso da letra
que Dorothy escrever para a melodia de McHugh (1894-1969). A
canção, depois de recusada por um produtor da Broadway em
1927, seria lançada na revista negra Blackbirds of 1928, a 9
de maio daquele ano. Sucesso espetacular. Lenita canta-a
soberbamente.
THEY SAY IT'S WONDERFUL Annie get your
gun foi um dos musicais de maior sucesso na Broadway nos anos
40, tendo estreado a 16 de maio de 1946. As canções foram
escritas por Irving Berlin, a maioria delas com o pensamento
voltado para a voz, a presença e o carisma de Ethel Merman, a
estrela do show. Esta bonita balada, uma das poucas do score,
foi lançada pela própria Ethel num dueto com Ray Middleton.
Lenita a interpreta num andamento mais lento, nostálgico
quase. Aliás, como convém à maioria das canções românticas de
Berlin.
TILL THERE WAS YOU Engana-se quem
pensa que esta é uma canção dos Beatles. Eles sequer a
descobriram quando a gravaram em 1963. Willson (1902-1984)
escreveu-a para o musical The music man. Foi lançada na
Broadway na noite de 19 de dezembro de 1957 pelo par romântico
da peça. Ele, Robert Preston. Ela, ninguém menos que Barbara
Cook, então magra, bonita e com uma voz cristalina como a que
Lenita nos mostra aqui.
LULLABY OF BIRDLAND Esta é uma das
peças favoritas dos músicos de jazz, sobretudo os da era bop,
que a visitaram e revisitaram das mais variadas maneiras. O
Birdland do título é o nome de um club de jazz que havia em
Nova York nos anos 50. Shearing, o excelente pianista cego
inglês, tocou ali em 1952 e na mesma ocasião escreveu o tema.
A letra de Foster é posterior. E, embora valorizada pela
interpretação de Lenita, está muito aquém da melodia.
SOMEONE TO WATCH OVER ME Coube à
estrelíssima atriz e cantora inglesa Gertrude Lawrence
introduzir esta famosa canção numa das cenas do musical Oh
Kay!, cuja estréia na Broadway deu-se a 8 de novembro de 1926.
George Gershwin (1898-1937) e seu irmão Ira (1896-1983) são
presenças obrigatórias no repertório de qualquer cantor de bom
gosto. Principalmente George, por suas melodias originais e
suas harmonias avançadas para a época. Muito das qualidades de
Lenita como intérprete pode ser avaliado por suas
interpretações de uma canção de Gershwin.
L'AMOUR, TOUJOURS L'AMOUR Friml
(1879-1972), natural da Boêmia, foi outro europeu que levou a
opereta para a América. Escreveu várias, entre elas The
Firefly, the vagabond king e Rose Marie. Curiosamente, uma de
suas canções de maior sucesso popular, L'amour toujours
l'amour não foi escrita para o palco. É obra isolada que
ele compôs sobre os versos de Catherine Cushing (1874-1952),
também ela libretista de operetas. Muita gente gravou esta
canção, mas não há exagero em dizer que Lenita tornou-a mais
bela.
João Máximo -
Outubro.1989 |